Venho notando certas tendências de consumo este ano, entre pobres e ricos. E a maioria delas refere-se ao comércio de tempo. Sim, quem possui condições investe em ganho de tempo e não necessariamente em ostentação ou produtos perecíveis.
Entre as elites, as viagens continuam como símbolo de status. Mas hoje não basta somente viajar. A performance da viagem é necessária. Vale mais viajar para a Eswatini (antiga Suazilândia) que para Paris. Vale mais uma viagem de um gringo para o interior do Brasil que para uma capital nos Estados Unidos ou qualquer país do hemisfério norte.
Performar não necessariamente é estar e postar tudo nas redes sociais. Ultimamente, a opção de estar fora das redes ou offline é considerada um foco de consumo de alta riqueza. Porque, quem hoje de classes médias ou baixas pode viver sem um WhatsApp ou Telegram? Realisticamente falando, é necessário não só para comunicação, mas também para trabalho. O mesmo vale para outras redes.
E o lazer de baixo custo é também, de certa forma, ridicularizado em círculos mais afluentes. Há de se ter um incremento nas opções artísticas: cursos de pintura, história da arte, visitas a museus reais, e para isto é necessário dinheiro, coisa que as classes mais baixas não possuem. E, para te falar a verdade, elas nem possuem extremo interesse em cultura, ao passo que estão ali nas redes sociais ou streaming assistindo ou ouvindo a mais um enlatado.
A alta performance também ocorre nos esportes. Há que se correr maratonas, fazer Ironman, nadar quilômetros... tudo com gadgets marcadores de funções vitais precisas, smartwatches e até smart rings. Fazer exercício físico não está sendo somente por saúde ou estética; hoje busca-se mais: uma performance hercúlea, o corpo perfeito.
Anabolizantes, Ozempic. Hoje ser magro é questão de dinheiro e não de esforço. Bastam alguns meses se injetando e pronto. A saúde real não vem, e certamente o efeito sanfona voltará caso a pessoa não mude drasticamente de hábitos. O rico tem tempo para cultivar seu corpo, tem tempo para ir à academia, pagar um personal, ter check-ups médicos e avaliações esportivas. Quem busca atalhos é o pobre. E, muitas vezes, sem profissionais, faz uso exagerado e não regulamentado de drogas e morre.
E a beleza natural reina ainda sobre processos estéticos. Um rejuvenescimento facial, botox ou demais cirurgias, lifting, etc., não são mais a moda como há 10 anos. Hoje, ter uma beleza natural custa caro e a moeda é o tempo. Comprar uma operação nunca vai ser mais estimado que simplesmente ser bonita(o) naturalmente. E este tempo estampado no rosto é algo que só as classes baixas e médias possuem, pelos acontecimentos da vida. O rico é blasé, consegue manter melhorias estéticas sem se importar muito.
O uso de IA em 2026 é visto como brega pelo rico; só o pobre mesmo aceita este material visual de baixa qualidade estampado universalmente em redes sociais, vídeos, imagens e fotos editadas por inteligência artificial. O rico valoriza o manual, o do it yourself, e o abastado pode pagar uma pessoa para realizar um trabalho gráfico. Ao pobre, o ChatGPT e demais IAs entregam o mínimo, sem muito esforço humano.
Outro ponto é o analógico. Hoje não basta ouvir música em casa em seu rádio ou caixinha de som. Tem que ver performances ao vivo. Ou, para se diferenciar, a cultura do vinil. Caro, restritivo, dependente de um setup musical para abastados, uma sala específica, uma decoração. Ouvir aquela música digital não é mais estar no estilo; tem que comprar um disco por R$ 400 a R$ 600 para valorizar bem o álbum. A música não é mais música, virou um produto caro de nicho.
Até mesmo com jogos. Há um boom do analógico na forma de jogos de tabuleiro. Um hobby em que entrei por um tempo, mas que é muito impeditivo pelo preço. E no digital, ser um gamer bem visto requer uma coleção física de cartuchos. Tudo analógico, tudo caríssimo.
Acima de tudo, o rico tem uma moeda de troca em suas relações: o tempo. Estar em ambientes com pessoas ricas inevitavelmente implica que tomaram decisões adversas às suas. Mas a maioria destas decisões envolve um grande custo de dinheiro ou tempo. Dinheiro para eles não é o problema; eles simplesmente compram profissionais para realizar atividades que têm dificuldade. Mas o tempo, por outro lado... hoje eu sinto que é uma questão cultural este desvio de finalidade de tempo. Os interesses de uma pessoa abastada provavelmente podem diferir dos seus. Enquanto eles olham para prospecções culturais com seu tempo, você está só querendo pagar as contas do mês, rezar para não perder o emprego e focar seu tempo em estudo e especialização ao invés de ideais mundanos de consumo.
São posturas diferentes. Só quem já conheceu alguém rico sabe que as leituras são outras, a visão de mundo, o refinamento, as línguas estrangeiras adicionais que eles falam, o requinte com vinhos e bebidas, o currículo, as conversas centradas em empreendimentos e viagens... tudo é diferente, o tempo é a moeda corrente. E não estamos falando de super-ricos. Hoje, para estar no topo de 1% da pirâmide salarial brasileira, é necessário R$ 25 mil mensais por pessoa da família. Famílias com 4 pessoas e que recebem R$ 100 mil já caem neste recorte.