Nos últimos dias fixei meus interesses no dandismo, na flanagem e em como estes estilos de vida do século XIX foram trazidos ao Brasil na figura do malandro.
“O dandismo é uma filosofia de vida, uma postura moral e uma doutrina estética que usa a elegância extrema, o refinamento e a originalidade como formas de expressão e de rebeldia.”
Basicamente, em minhas pesquisas descobri que a cultura dândi é uma contra-resposta à burguesia da época. É um estilo estético de se vestir e se portar, de forma menos opulente que a dos nobres, e que o distingue da classe trabalhadora e dos burgueses. Usualmente usam-se trajes como ternos de alto estilo, cartolas, flanelas e utensílios refinados. Roupas e ações que não se adequam aos demais estilos dos cidadãos das grandes cidades europeias. O que o faz se diferenciar na sociedade da época.
Embora haja citações de dândis com menos posses, nota-se que a maioria tem recursos para manter este estilo de vida. De certa forma, parece uma “vadiagem aristocrática”, mas é um estilo que quer se destacar e se diferenciar das classes sociais presentes na estrutura social de Londres e Paris no final do século XVIII e em todo o século XIX.
O dandismo, entre outras coisas, também gera a postura flâneur. Enquanto o dandismo é a atitude e a estética do indivíduo, a flânerie é a ação e o método de interagir com o mundo. “O indivíduo urbano está em comunidade, mas busca se distanciar da mesma por posturas de individualização, que vão dos gestos, ações e vestimentas.”
Um dos processos de diferenciação do dândi é a sua indiferença, também chamada de postura blasé. O dândi usa a cidade como um teatro para se exibir; ele performa em sua diferenciação. Anda mais lento, procura apreciar uma visão poética da vida. Ele mantém o controle total de si mesmo (o rigor dândi), enquanto absorve a energia caótica da cidade grande, transformando o caos urbano em matéria-prima para a arte e para o pensamento.
Estudando sobre o tema, percebi que ser dândi requer muitas posses e tempo livre para performar na multidão urbana. O dândi parece ser um grande “vagabundo exibicionista” ao meu ver, mas que foi necessário para uma visão diferenciada do espaço urbano da época.
E no Brasil, onde o dandismo está? Santos Dumont, Olavo Bilac… mas é mais simples que isso: o dândi nacional também é o malandro carioca! Sim, o dandismo europeu foi para os Estados Unidos no século XIX e se tornou popular entre dândis negros em cenários afluentes norte-americanos. Depois, já no século XX, a figura do malandro brasileiro, influenciada pelo dandismo afro-americano, mistura-se com o conceito dândi.
O malandro brasileiro usa roupas finas para se diferenciar da multidão. Continua com uma postura de malandragem e vê o cenário urbano como um palco para seu estilo de vida e sua essência estética. Usa flanelas, roupas de linho, chapéu… Imagine a figura do Zé Pilintra como ideário da malandragem do início do século XX.
Neste contexto, perguntei à inteligência artificial bons nomes de malandros brasileiros que preservam o dandismo, e ela me forneceu isto aqui:
Podemos ver aqui a influência do dandismo dos séculos XVIII e XIX em uma das atuais estampas da cultura brasileira, na religião, no ideal de malandro e no surgimento do samba. Embora em contexts diferentes e em épocas diferentes, os objetivos dos aristocratas franceses são próximos de figuras como o poeta, compositor e malandro Cartola aqui no Brasil.
E o dandismo permeia outras culturas afro-descendentes, como a cultura rapper, o estilo “pimp” nos Estados Unidos com vestimentas formais, cartolas e ternos coloridos, muito utilizado por artistas como Snoop Dogg em alguns de seus clipes.