Os anos 2000, hoje em dia, são celebrados com nostalgia na internet: o Frutiger Aero do Windows XP e do Vista, Avril Lavigne, Counter-Strike, Linkin Park, Malhação, o bruxo Ronaldinho Gaúcho, Charlie Brown Jr., câmeras digitais, Game Boy Advance e Nintendo DS, MTV, pirataria P2P na internet pós-Napster, Coldplay, o final de Friends, MSN Messenger, mIRC, LAN Houses, pendrive, Torrent, Brasil Pentacampeão, The Strokes, o fenômeno Lost, The Walking Dead e o renascimento zumbi, Orkut, MP3 players, The White Stripes, iPhone, o 11 de Setembro, fansubs de anime, PS2 e PS3, MySpace, Facebook.
Tudo começou no ano 2000, o ano do bug do milênio, que nunca ocorreu. Na época, eu tinha 12 anos de idade; pelas minhas contas, estava na sétima série do ensino fundamental no colégio de freiras em que estudava. Passava os dias em uma rotina simples: ir para a escola de manhã e, antes de sair, deixar o toca-fita gravando em baixa qualidade. A fita gravava por 6 horas e conseguia capturar os desenhos que eu queria, que passavam na TV Globinho depois das 10h.
Chegava em casa, rezava para que ninguém desligasse o meu gravador de fitas cassete e, durante a tarde, assistia a duas horas de desenhos gravados em qualidade lastimável. Sakura Cardcaptors, Digimon, Hamtaro e Dragon Ball GT eram os meus preferidos. À tarde, assistia a essas duas horas e depois já engatava o programa Band Kids. Das 15h até as 18h: Tenchi Muyo!, Bucky, Monster Rancher, Slayers, Os 6 Biônicos, El-Hazard, Dragon Ball Z. Já no programa da Eliana passava Pokémon, que depois foi para a Globo também.
Depois das 18h, fazia minhas lições de casa ou estudava para as provas. Sem internet, sem estresse, sem notícias ruins a todo momento, sem estar disponível para os outros 24 horas por dia, 7 dias por semana. Era uma boa vida. À noite, eu jogava meu Super Nintendo e as únicas 7 fitas que eu tinha, ou jogava no PC os mesmos 10 CDs de sempre, jogos completos da revista CD Expert ou Fullgames, ou os clássicos mais baratos traduzidos pela Brasoft, somados a Campo Minado e Paciência/FreeCell no Windows.
Conheci a internet por volta de 1999. Nós até tínhamos internet e modem em casa, mas era muito caro acessar. Muito mesmo, pelo menos para a minha realidade. Então, eu acessava só aos finais de semana, porque a ligação custava apenas um pulso da tarde de sábado até as 6 horas da manhã de segunda-feira. Eu tinha um Pentium 233 MHz nessa época, com kit multimídia Sound Blaster AWE64 e Windows 98 Plus. Fui ter o Windows XP anos mais tarde, em um computador que ganhei em 2003: um Pentium 4 com uma placa FX5200. Mas, sobre a internet, eu a usava somente aos finais de semana. Era um evento navegar na rede e, para quem não consegue entender como era, o modem de 56 kbps baixava a 4 KB/s. Então, uma página de 1 MB levava 4 minutos para abrir. Uma imagem simples de 400 KB levava 2 minutos, e uma música levava de 15 a 25 minutos para ser baixada. Uma única música em MP3. Streaming nem em sonho; até no YouTube você tinha que deixar o vídeo carregando por uns 5 a 10 minutos antes de dar o play.
A internet era fantástica, tudo era lento, tudo tinha um custo de tempo. E sim, se a conexão caísse, você perdia o seu download (e era comum acontecer). Isso até criarem programas que dividiam o arquivo em partes e gerenciam os downloads de arquivos grandes. Assim, mesmo que a internet caísse, você dava um resume. Baixar um CD de software era impossível; 700 MB era algo para deixar dois finais de semana dedicados só a isso, sem poder acessar mais nada. Nesse cenário, era popular a pirataria em banquinhas de CD/DVD, pois o tempo economizado compensava os 10 reais que custava um CD pirata.
Em 2003, tive Orkut; em 2006, MySpace; e em 2008, Facebook. As redes sociais eram muito diferentes das modernas. O Orkut tinha páginas estáticas, assim como o MySpace. O Facebook criou o novo padrão: páginas com rolagem e carregamento infinitos. Depois, no fim da década de 2000, a monetização das redes se tornou onipresente, usando os dados e o tempo do usuário como moeda de troca por propagandas direcionadas aos seus interesses. Nos anos 2000 não era assim: existia, sim, monetização com banners, mas ela não era controlada por algoritmos de recomendação. Era menos invasiva e direcionada, e a engenharia social voltada ao consumo estava em outro nível.
Os anos 2000 foram a transição entre o fim do meu ensino fundamental, o ensino médio e os anos iniciais da minha primeira faculdade, o bacharelado em Geologia na UFPR. Tive uma namorada nessa época, no ensino médio, e no restante do tempo estive solteiro. Um namoro de 7 meses não é exatamente o mais importante em uma vida, mas na época, por ser o primeiro, era importante.
Eu nadava em mar aberto, fazia travessias de 3 a 5 km no mar e circuitos de natação livre. Cheguei a fazer parte da equipe de natação do meu clube; gostava muito de nadar nessa época. Nunca ganhei nada; normalmente era um dos últimos a chegar nos campeonatos, mas sempre conseguia concluir a prova, mesmo sob condições ruins de tempo e temperatura. Nadei em Santa Catarina e no Paraná em vários campeonatos, e foi interessante.
Em 2006, fiz minha primeira viagem internacional, para o Uruguai e a Argentina. Em 2008, fiz um intercâmbio universitário no Japão por 5 semanas e apresentei um trabalho acadêmico na Noruega por 10 dias. Também nessa época, a partir de 2008, entrei em depressão profunda, a ponto de desistir de tudo o que fazia na época. Só em 2012 isso foi resolvido, quando tive o diagnóstico correto de transtorno bipolar, passando a ser acompanhado com a medicação adequada desde então.
Entre 2003 e 2008, fui metaleiro. Ouvia as músicas que conseguia baixar, comprava CDs e cheguei a ter a discografia física de Sonata Arctica, Luca Turilli e Rhapsody. Também colecionava discos das Melhores da Pan, que eram compilações de músicas da rádio que eu ouvia muito, a Jovem Pan. Quase fui clubber, inclusive.
Quanto a shows, lembro que fui a mais de 40 nessa época. A meia-entrada de estudante custava de 15 a 20 reais. Todo mês eu ia a um show novo, principalmente de heavy metal. Curitiba era rota de bandas internacionais, então vi muitos shows bons de bandas clássicas: Dream Theater, Stratovarius, Angra, Shaman, Sepultura, Helloween, Iron Maiden, Iced Earth, Sonata Arctica, W.A.S.P., Massacration, Edguy, Grave Digger, Blind Guardian, Racer X, entre outras. Em outros estilos musicais, fui a shows do Oasis, Mordida, Blindagem, Jens Lekman, Yelle e dezenas de outros artistas nacionais na Virada Cultural de Curitiba. Foi um tempo muito bom nesse aspecto.
Em 2008, comecei a ir a baladas. Ia principalmente ao James Bar, em Curitiba; depois, meus lugares eram o V.U., o Bar do Simão e o Wonka Bar. Gostava mesmo desses quatro lugares da cidade e ia todo final de semana. Eram bares que hoje poderiam ser considerados gays, mas eu ia pela música alternativa, pop, indie rock, electropop, rock e indie pop. Era um ambiente de que eu gostava, e eu ia com meus amigos. Nunca fiquei com ninguém nessas baladas, mas gostava das coisas banais: o cheiro do cigarro no fumódromo, a long neck que eu comprava, o "litrão" compartilhado e, principalmente, a música. A pista de dança pouco me importava, pois nunca fui dançarino; mas as luzes, o som alto, as roupas das pessoas e o ambiente eram muito bons. Tanto que eu repetia a dose todo final de semana. Foi assim de 2008 a 2011; depois, mudei de hábitos.
Não sei como explicar, mas, sem uma internet onipresente, a realidade era muito mais palpável do que hoje. Os conceitos de sociedade líquida do sociólogo Zygmunt Bauman fazem muito sentido no período pós-2010, com a popularização massiva da internet. O que mais se destacava nessa época era o fato de você entrar na internet quando desejasse, sem que ela controlasse vários processos, como ocorre hoje. Sinto falta disso nos anos 2000: a transição entre um mundo hiperconectado e outro que ainda usava celulares simples, televisão como meio principal de entretenimento, cinema mais popular, rádio, CDs e muitos processos e trabalhos manuais, no papel mesmo, como o jornal impresso. Acredito que a menor abundância de informação deixava tudo mais interessante do que hoje.
Os anos 2000 foram intrigantes, o que depende muito da sua idade nessa época e das suas experiências de vida. Para mim, foram uma transição muito boa, dos meus 12 aos 22 anos. Percebo que é uma época que, para muitos, é marcada por músicas, filmes e eventos culturais, mas para mim a mudança mais drástica foi a internet. Em 2006, migrei de uma realidade de uso restrito aos finais de semana para uma conexão 24/7. Mantenho essa realidade atualmente, sem uma possibilidade real de retorno ao que era no passado. Hoje, desconectar-se é um luxo; em 2000, era o padrão. Essas mudanças fazem com que haja nostalgia por uma época com menos informação, menos ideias circulando e menos presença de algoritmos ditando tendências de consumo.
Os anos 2000 nunca voltarão. Hoje tenho playlists com músicas da época, emulo jogos de Nintendo DS, PlayStation 2 e Game Boy Advance que jogava no período, mas os locais a que eu ia não existem mais, e os shows das bandas hoje custam um rim... A tecnologia mudou muito em 20 anos. Hoje é "melhor", mas é melhor mesmo? Os novos hábitos atuais podem tentar emular a realidade nostálgica de décadas atrás, mas nada será como antes. O mundo mudou e nós mudamos. O que resta são as sensações e os sentimentos recriados ao ouvir "Reptilia" (The Strokes), "Fluorescent Adolescent" (Arctic Monkeys), "Sinais de Fumaça" (Mordida), "Rebirth" (Angra) ou "Kids" (MGMT) mais uma vez.
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