Pessimista profissional

23/08/2026 Impressões

Sou um pessimista nato. Daquele tipo de pessoa que sempre vê o pior em tudo. Tudo vai dar errado. Sempre fui assim, sempre tive problemas com dificuldades na vida e sempre me blindei delas através do pessimismo. Penso sempre no pior: nada vai dar certo, nada será superado, nada será solucionado. Mas tenho meus motivos para pensar assim e, por incrível que pareça, esta minha postura de buscar a pior situação possível vem de dois aprendizados que tive em minha vida.

O xadrez

Eu jogo xadrez em um bom nível. E no xadrez existem duas máximas: saiba o que seu oponente pensa e qual é o seu plano; e a segunda máxima é: antecipe-se. Um dos objetivos do jogo é prever o que irá acontecer, e sempre devo pensar na pior possibilidade, como se eu estivesse prestes a perder a qualquer momento.

Esta ideia de querer prever posições extremamente ruins sempre me salva destas mesmas posições péssimas. Quando consigo visualizar possibilidades de o adversário me destruir em poucos lances, faço o que todo bom jogador faz: uma contra-resposta, seja uma defesa das casas do jogo que possibilita este ataque fulminante, seja armando um contra-ataque mais rápido que o do adversário.

Desta forma, pensar no pior é uma forma de defesa. E "deixar a vida me levar" acarreta derrota se este mesmo oponente visualizar todas as linhas de ataque que você imaginou. E se ele estiver no seu nível de jogo, vai achar estes recursos. No xadrez mais vale a ameaça de algo que propriamente a ação. Poder realizar algo é mais forte que efetivamente realizá-lo, pois seu adversário sempre tem contra-respostas para os seus planos estratégicos.

E como eu jogo há décadas, esta ideia de antecipar sempre a pior possibilidade está enraizada em mim. Em várias situações do meu dia eu analiso a realidade através de um olhar de enxadrista. O que pode dar errado? Como prevenir tudo isso? Posso me antecipar?

O Estoicismo

Conheci o Estoicismo em 2013, muito antes de os coaches o utilizarem como a panaceia para o mundo dos negócios. Na época, li os principais autores da filosofia em busca de novas ideias.

Existem várias ideias nesta filosofia — muitas não me agradam —, mas uma que eu levo para sempre comigo é a visualização negativa, que li em um livro de William Irvine, no qual ele relata pontos da visualização negativa em textos de Sêneca e de Epicteto.

Basicamente este modelo de pensamento reflete uma constante ideia de comparação de cenários que ocorrem com cenários fantasiosos negativos. Seu filho está doente na cama? Imagine a situação em que ele tenha morrido (uma situação pior que a atual). Assim, visualizando uma situação pior, você dará mais valor à situação atual real e à condição presente, mesmo que ela não seja a ideal. Você busca conforto em uma situação ruim atual imaginando que ela poderia ser pior.

Perdeu o emprego? Imagine que esteja morando embaixo da ponte e o que faria nesta situação. Isto te fará ver o quanto você tem de recursos hoje para viver e o quanto demora para esta situação pior vir a ocorrer.

Um problema na empresa? Pense que ainda tem o seu trabalho e que ainda há tempo de consertar os problemas. Poderia ser pior, não é agora. Mas há sempre uma solução.

Uma doença? Pense que poderia ser algo mais grave e entenderá que a situação atual ainda não é a final.

A técnica de visualização negativa também pode ser empregada para perceber que o momento atual é muito bom. Imagine que seu carro quebrou, que a geladeira quebrou, que seus eletrodomésticos mais caros quebraram. O que fazer? A visualização negativa neste cenário te faz perceber o quanto você deve ser grato pelo que possui agora, e que sim, todas estas possibilidades podem ocorrer e vão ocorrer um dia. Isto, em outras palavras, te faz pensar sobre reserva de emergência para cenários catastróficos de perda. A visualização de cenários ruins e pessimistas te ajuda a agradecer pelo cenário atual em que tudo funciona.

Concluindo

Então é desta forma que vivo hoje: antecipando possibilidades ruins, minimizando problemas atuais com a possibilidade pior do que algo que pode me ocorrer e sempre pensando em como consertar as piores situações antes que elas aconteçam.

A antecipação e a negatividade são constantes em mim e acho que, embora pareça pesado só pensar no pior, eu não penso no pior a todo instante de forma depressiva. Eu penso no pior para encontrar soluções para que ele não aconteça comigo. Antecipar, analisar, estrategizar. Tudo isso é uma constante em minha vida. Faz com que eu não me abale muito quando algo ruim ocorre fora do meu controle; e o que está dentro do meu controle eu antecipo e evito sempre.

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