Perfect Days (2023)

03/06/2026 Filmes

BEDA STAMP
Capa do filme Perfect Days

Perfect Days, ou Dias Perfeitos, é um filme dirigido por Wim Wenders que deu a Palma de Ouro ao ator protagonista Koji Yakusho em 2023.

É um filme inspirador, com múltiplas interpretações, mas, acima de tudo, é uma obra que corre contra a maré do mercado audiovisual atual, assim como seu personagem principal corre contra a maré da modernidade e dos padrões impostos pela sociedade.

A história é simples: acompanha os dias do senhor Hirayama, um homem na faixa dos 50 anos em Tóquio. Ele é um personagem metódico, cheio de rituais, que trabalha na limpeza de banheiros públicos da cidade. Vive sozinho em uma pequena casa, onde mantém algumas fitas cassete, alguns bonsais, livros e um rádio toca-fitas. É basicamente essa a vida de Hirayama: simples, analógica e deslocada da realidade rápida e ultratecnológica que o cerca.

O filme tem poucos personagens, mas todos eles têm suas intervenções na vida de Hirayama: o colega de trabalho e sua pretendente, sua sobrinha, sua irmã, os idosos com quem compartilha o ofurô, a vendedora de livros, o revelador de fotos e os proprietários de dois izakayas (bares japoneses) que ele frequenta. No final, outro personagem com uma mensagem importante entra em cena, mas não quero estragar a surpresa.

A vida de Hirayama traz consigo muitos ideais budistas, sendo o principal deles a vivência do presente. Em um momento com sua sobrinha, ela pergunta se, já que todos os rios vão para o mar, por que eles não iriam ao mar também. Ele responde que não, pois «o agora é o agora e o depois é o depois». Repete essa frase várias vezes, destacando que, para Hirayama, tudo é focado no presente, enquanto o futuro e novas descobertas terão de esperar. É um ideal budista mais do que evidente.

Alguns diriam que Hirayama é muito duro consigo mesmo e até estóico. Eu acho que não; ele desenvolveu essa habilidade após traumas familiares. O filme não explica os detalhes, mas nota-se que o limpador de banheiros veio de uma família abastada e, por conflitos familiares, deve ter resolvido optar por essa vida simples.

Não acredito que ele se prive de uma realidade além daquela em que está inserido. Ele parece fazer isso por opção, uma decisão pessoal e não algo imposto. Em diversos momentos do filme, ele fotografa a copa das árvores. Ao final do longa, é apresentada uma palavra em japonês (Komorebi) que se refere à luz do sol filtrada pelas folhas das árvores, um fenômeno visual único. Hirayama registra esse momento diariamente e cataloga as fotos impressas em seu armário.

Há também uma interpretação do Mito de Sísifo aplicada à rotina do personagem. A estrutura criada pelo cineasta é marcada pela repetição diária. O personagem está sempre focado em seu trabalho, dando o melhor de si para que possa dormir e acordar no dia seguinte com os mesmos objetivos e a mesma empolgação. Aparentemente, essa repetição permitiu ao personagem desenvolver uma estrutura própria para lidar com a existência: focar em seu trabalho e aproveitar a vida nos fins de semana, quando pega sua bicicleta para lavar roupas e comprar livros por 1 dólar.

Pessoalmente, achei que essa vida restrita ao momento presente pode ser uma prisão. Não acredito que isso se sustente a longo prazo, pois torna a pessoa menos flexível e adaptável a mudanças. Um pouco de fuga da rotina é necessário; no entanto, Hirayama frequenta sempre os mesmos lugares, vai ao mesmo bar, pede o mesmo prato, toma o mesmo copo d'água, consome o mesmo café gelado de máquina todos os dias e ouve as mesmas fitas cassete. Acredito que, embora essa carapaça proteja o personagem de sua realidade árdua, quando o inesperado ocorre, ele chora e se emociona (não apenas pelo evento em si, mas por perceber que algo fugiu do seu controle).

No final do filme, em um plano espetacular, ele parte para mais um dia. Mesmo sofrendo e sabendo que reviravoltas aconteceram, ele cumpre seu papel: trabalha e repete sua rotina, uma rotina que, para ele, é estática.

Embora a ideia de viver o momento seja sedutora, ela pode se tornar totalmente enclausurante. Viver também é ir até o oceano, em vez de apenas observá-lo do alto de uma ponte sem se arriscar, tudo em nome do conforto do agora.

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