Colecionei muita coisa em minha vida: canetas, cadernos, controles de videogame, CDs, DVDs, MP3, livros, quadrinhos, cabos, HDs, computadores, jogos digitais, ímãs de geladeira, relógios de pulso, chaveiros, canecas... a lista não tem fim.
O que acho interessante nas coleções é o fato de todas elas terem uma quantidade anormal de objetos que são guardados intactos, comprados e nunca utilizados. Bom, um dia eu leio, um dia eu ouço, um dia eu jogo. Este dia nunca chega.
Já reduzi significativamente minhas coleções. Hoje os CDs e DVDs que restaram cabem todos em uma caixa, os livros em uma única prateleira, os cabos e memórias de armazenamento em uma lata. Meu espaço reduziu e os objetos foram sumindo junto dele, ou se tornando digitais.
Acredito que todos que possuem uma coleção acumulam mais do que podem consumir. E sempre vão querer incluir novos itens na coleção, mesmo com os antigos intactos (tenho livros comprados há 20 anos embalados no plástico).
Chega um momento em que o que vale é o acesso, não mais o produto. Poder ter a chance de um dia consumir algo que está em sua coleção ganha do fato realístico de se pegar um objeto dela e utilizá-lo. Vale mais a pena poder ter acesso fácil a um uso do que realmente utilizar um livro ou quadrinho.
Hoje estou assim com meus livros: li cerca de 60%, e 40% estão lacrados. Uma coleção de cerca de 110 títulos aqui em Matinhos e mais 60 títulos em Curitiba.
Jogos de videogame: somando minhas duas bibliotecas digitais oficiais (Steam e GOG), tenho cerca de 650 jogos adquiridos legitimamente no decorrer de 16 anos. Jogados e concluídos, cerca de 250 títulos — praticamente 40% consumidos e 60% intactos.
Eu fico pensando: se eu tivesse uma caixinha de DVD para cada jogo digital que tenho, faria um volume monstruoso. Uma caixinha tem espessura de 14 mm... calculei aqui e dá 9 metros de caixinhas empilhadas lado a lado. É significativo, mas, como é digital, nem reparamos no tamanho da coleção.
Músicas: hoje consegui me livrar totalmente de assinaturas como o Spotify. Ripei os CDs que tinha na infância, comprei uma coisa ou outra digital no Bandcamp, baixei manualmente meus discos de meus artistas favoritos... Hoje tenho cerca de 20 mil músicas catalogadas e organizadas. Se estivesse com CDs físicos, ocuparia facilmente mais vários metros para comportar 2 mil CDs (considerando que um álbum possui em média 10 músicas).
Hoje há como reduzir tudo ao digital. Na próxima década quero uma redução ainda maior: ter tudo digital. Físico, só o próprio notebook, um controle de videogame, um portátil de videogame para jogos retrô, meia dúzia de HDs e SSDs de backup, um mouse, um fone de ouvido, e só. Se eu conseguir dar um fim na minha coleção de livros e ficar só com uns 20 livros significativos que eu realmente irei reler, assim o farei.
Coleções são ótimas quando são práticas, funcionais, e não te jogam na toca do coelho do colecionismo ou da acumulação. Hoje pode-se ter muito sem ter quase nada físico.
Pessoalmente, sou contra a contracultura analógica atual; para mim é só consumismo disfarçado de nostalgia cega. Comentei isto neste post aqui (se tiver interesse, passe lá). Acho que pagar 400 reais ou mais em um vinil focado em recriação de um passado utópico é um desaforo, só para ouvir uns estalos em equipamentos caríssimos e colocar na parede como troféu.
A meu ver, o que vale hoje é ler, ouvir, escrever e jogar o que tenho no momento agora. Ao ver uma estante com livros inacabados e pelos quais hoje não tenho mais interesse, percebo cada vez mais que o consumo imediato (comprar e já usar) é a melhor solução, e a reciclagem (sebos) e a pirataria são bons caminhos. Claro que, podendo comprar, compro tudo oficialmente... mas muitas coisas são vendidas sem o período de teste ou possuem valores incompatíveis com o mercado nacional, precificadas segundo realidades abastadas de Primeiro Mundo (enquanto hoje nós ganhamos menos e nossa moeda vale 5 vezes menos — é impensável se equiparar ao padrão de consumo externo com estes salários). Neste caso, embarco em uma viagem pelos sete mares da internet e, futuramente, quando consigo uma promoção acessível, compro.
Afinal, você possui os objetos de suas coleções ou é possuído por eles?
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